domingo, 10 de junho de 2012

Demian

"Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós."

Se o livro Demian, do escritor alemão Hermann Hesse, tivesse uma nota de contra capa seria essa citação de Franz Kafka.

“A ave sai do ovo. O ovo é o mundo."
Antes de mais nada, é importante falar que estamos tratando do vencedor do Nobel de Literatura em 1946, então todo cuidado é pouco para falar desta obra.

O livro trata de um dilema enfrentado por todos, a passagem entre a infância e adolescência pra vida adulta. É o tipo de transição que todos fazemos, mas ver retratado em um livro chega a ser assustador.

Quando li Hesse pela primeira vez, foi por indicação do pai de um amigo. Estava completando 15 anos e ele disse que era a idade certa pra isso. Na época não entendi o que ele disse e acho que quando li pela primeira vez ainda não estava pronto.

Voltei a ler quando fiz 18 anos e aí sim, acho que consegui pegar a essência do livro.

É raro que eu afirme categoricamente ter um livro de cabeceira e Demian é ele, com toda certeza.

Estou me propondo a fazer uma resenha agora, mas já adianto que nada substituirá a sua leitura, sobretudo pra um livro desse tipo.

Primeiro porque o livro exige uma leitura lenta. Cada página tem de ser lida duas ou três vezes, sem exagero.

Segundo porque a análise interior do livro é a principal característica. E antes que você fale, não, não é uma autoajuda. Acho mais fácil ser uma autodestruição. Como disse Bakunin certa feita, "a paixão pela destruição é uma paixão criativa". E essa é a essência de Demian.

O personagem do livro, um jovem chamado Emil Sinclair, busca durante as páginas do livro desconstruir suas bases, antes sólidas e confiáveis. Busca seu caminho lutando contra as limitações da idade.

O mais interessante pra mim é a dualidade presente no livro. De um lado, o porto-seguro dos pais, do outro o mundo cão. É nesse dilema que Emil se encontra logo de cara. Ressalto o principal ponto do livro, isso é algo que todos já passamos (ou estamos prestes a enfrentar).

Parte de um lar super protetor para o mundo, através dos ensinamentos de Demian, um colega mais velho e com questionamentos extremamente precoces e grande capacidade de dicernimento. Demian mostra a Emil que só através da experimentação podemos conhecer as coisas, o que nos levaria ao amadurecimento. Só assim podemos ter noção do que é bom e do que é ruim.

Emil passa de problemas com caras brigões na escola até aquela clássica dúvida: o que vem a seguir?

Apesar da ajuda de Demian e de outros, o mais marcante mesmo é que o amadurecimento é vivido e desenvolvido por Emil, sempre. Ninguém mais consegue nos amadurecer, senão nós mesmos. O livro trata exatamente disso, andar com as próprias pernas.

O livro tem diversas passagens bíblicas, contrapontos entre religiões e coisas do tipo. Deixo de comentar esta parte, porque acho que o mais importante é cada um ter sua visão.

As passagens do livro, apesar de situadas no início do século XX são atemporais. Qualquer um consegue ler e se enxergar nas mesmas situações.

Poderia ficar aqui escrevendo dias e não conseguiria passar tudo que extraí lendo Demian. Falo sem medo, deveria fazer parte do currículo obrigatório de todas as escolas.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Lei de Gérson.

Pra quem não sabe, a Lei de Gérson implica unica e exclusivamente em levar vantagem. Em tudo.

É não se importar com princípios, questões éticas e morais.

Numa propaganda de tv veiculada nos anos 70, o ex-jogador Gérson dizia algo como "Por que pagar mais caro se o cigarro X me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Leve vantagem também, fume o cigarro X".

Anos depois, o anúncio ficou famoso por caracterizar exatamente isso: a necessidade do brasileiro em levar vantagem.

Aqui neste país maravilhoso, abençoado por Deus e bonito por natureza (que beleza!) temos as marcas mais evidentes da Lei. Somos conhecidos mundialmente (e o que mais me incomoda, internamente) pela fama de espertos, de sempre querer levar vantagem sobre os outros. Somos personificados na figura do malandro.

Poderíamos listar várias coisas, mas vou me ater apenas na corrupção. Quando vemos notícias que o partido tal desviou tantos milhões pro Caixa 2, ou que fulano era laranja da empresa tal, é quase unânime o descontentamento e a reprovação.

Mas quantos de nós, realmente, deixamos de ser "espertos" quando temos a oportunidade? Até nas coisas pequenas a gente gosta de levar vantagem. 

Se o caixa devolver dois reais a mais no troco da padaria, ganhamos o dia.

Acho que é inerente do povo brasileiro, independente de classe social ou educação.

Outra característica é a mania de empurrar a responsabilidade pro outro.

Quarta feira passada, dia 06, houve um acidente em BH que chocou quem viu. Um caminhão transportando uma bobina (exatamente o mesmo que presenciei dois meses atrás, em uma viagem a Juiz de Fora) perdeu o controle e bateu em outros carros. Até o momento, já morreram três pessoas.

Foto tirada no dia do acidente
Embora haja proibição para o trânsito de carretas naquela região, não se justifica o que aconteceu.

O motorista errou, pegou uma via que não podia. Ok.

Mas o que temos visto nos últimos dias foi nada mais nada menos do que um órgão empurrando a responsabilidade para outro.

No dia seguinte ao acidente, enquanto ainda se retiravam os destroços do acidente, os órgãos da administração pública poderiam se reunir para tentar acertar, finalmente, medidas imediatas e efetivas para que não ocorrecem mais tragédias como essas.

Mas não. O que vimos foi o Batalhão de Trânsito falando que o tráfego dentro das cidades é de competência do município. Que o DNIT só poderia auxiliar na discussão, mas quem efetivamente tinha culpa no ocorrido era a BHTrans, órgão municipal de aplicação de multas para quem não usa rotativo e pra quem conversa no celular enquanto dirige fiscalização do trânsito.

A BHTrans, por outro lado, lamenta que não tem efetivo suficiente para fiscalizar o trecho, um dos mais movimentados de BH e onde ocorrem os maiores congestionamentos da cidade.

Ninguém fala entretanto, que se a fiscalização no Anel Rodoviário fosse boa a carreta dificilmente teria entrado na cidade. Menos ainda sobre a falta de sinalização no Anel, as placas confusas e em péssimo estado.

Até pra quem mora na cidade é confuso. Imagina pra quem passa aqui esporadicamente?

As placas existem, mas não indicam nada com clareza.

Pra variar, vai ficar por isso mesmo. Em poucos meses ninguém mais vai lembrar desse acidente e a vida segue.

Acho que a Lei de Gérson merece uma atualização. Levar vantagem e empurrar a culpa para o outro.

domingo, 3 de junho de 2012

A vida pune.

Em uma das franquias mais clássicas do cinema, Sylvester Stallone viveu um lutador de boxe daqueles bem clássicos, realmente com perfil de vencedor de filmes.

Um cara limitado tecnicamente mas com grande coração, vencia as lutas geralmente buscando aquele algo a mais, na raça.

Teve uma carreira vitoriosa, chegando ao auge sendo campeão mundial. Mas também viveu o declínio, sem dinheiro e voltando a morar em casas humildes.

Nessa última fase, marcada pelo fim da carreira do Italian Stallion, foi desafiado por um jovem campeão, um rapaz arrogante que achava ser melhor que todo mundo. Esse é o roteiro do 5º filme da série, chamado Rocky V (note que criatividade não é o forte do Stallone).

Recentemente, foi lançado o sexto filme da série, chamado Rocky VI Balboa e mostra a vida do personagem principal depois de realmente ter abandonado a carreira e sendo desafiado novamente por um campeão em grande fase.

Não, eu não vou fazer uma resenha da série, apesar de gostar bastante dela (sobretudo o Rocky IV que mostra toda aquela briguinha EUA x URSS).

Estou aqui pra falar do nosso lendário Acelino "Popó" Freitas. Aquele cara que fez com que parte do país voltasse a acompanhar boxe, assistindo lutas na madrugada e se vangloriando de ganhar todas as lutas de locaute (sic) e raramente chegar no décimo rond (sic²).

O cara teve uma puta carreira. O cartel dele é invejável, ainda que em alguns momentos tenha procurado lutas fáceis descendo de categoria. São 41 lutas, 39 vitórias (33 por knockout) e apenas duas derrotas, cartel este que permitiu a ele ser campeão mundial por quatro vezes, nos pesos leve e super pena.

Após aposentado, Popó seguiu parte de ex-atletas e entrou na brincadeira da política, sendo eleito (após desistência de outro candidato) deputado federal pela Bahia.

Recentemente, entrou na vida de Popó o roteiro de Rocky.

Foi desafiado por um campeão mundial, o brasileiro radicado nos EUA Michael Oliveira. O jovem, que vinha invícto, começou a falar mal de Popó abertamente na imprensa e lançou o desafio: queria derrotar Popó.

Claro que pra ele, que ne época quase ninguém conhecia, a luta seria uma ótima oportunidade. Enfrentaria um grande ídolo e alavancaria a carreira. Mais, pegaria Popó sem treinar, aposentado e quase 15 anos mais velho.

Popó não só aceitou como derrotou ontem, num cassino em Punta del Este, Uruguai e botou um ponto final na sequência invícta do desafiante.

A vida pune.

Um ótimo encerramento de carreira para Popó que agora volta, ou ao menos deveria, suas atenções exclusivamente para a política.

Uma pena, entretanto, que em 2004 o Eder Jofre não tivesse condições de lutar quando o mesmo Popó gritou pra todos os lados que estava acima de todos, inclusive do próprio Jofre. 

 Adoraria ver o Jofre derrubando o Popó.

O vídeo da luta do Popó ontem está disponível na Globo.

sábado, 2 de junho de 2012

A Turma do Chávez.

Tô falando que tá tudo errado neste país e ninguém acredita.

E aí que o nosso ilustre ex-Presidente deu uma entrevista pro programa do Ratinho na última semana. Primeiro que eu ainda me assustei pelo fato do Ratinho ainda ter um programa, mas não é sobre isso que eu quero falar.

Vi depois uma matéria no G1 e me assustei. O excesso de populismo do Lula não é novidade, as teorias da conspiração que ele cita em todas as entrevistas e o grau de paranoia são assombrosos. É fato notório que pra ele, só o PT fez coisas boas pro Brasil, fato este que eu já até falei aqui no blog em tempos passados.

Bom, em suma, ele disse que caso a presidente (presidenta é a pqp) Dilma não queira se candidatar, ele o fará apenas para "não permitir que um tucano volte".

O cara TEM o rei na barriga. Não é possível tanta arrogância, ainda mais vinda de um cara "humilde" que passou fome na infância e "batalhou" para chegar onde chegou. É agora o dono do Brasil e eu não fiquei sabendo?

É até notório um cara como o Lula, saindo da miséria em Pernambuco ter chegado ao posto de Presidente da República. Acho isso foda. Eu até ignoro o fato de que ele simplesmente se aposentou por ter perdido um dedo, coisa que hoje em dia ninguém vai conseguir, pelo menos na função que ele exercia.

Agora, essa arrogância sustentada pelo populismo barato dele me mata. De verdade.

Acho assustador esse papo de manutenção de poder, evitar a todo custo que o poder saia das mãos do meu partido... Ninguém duvida que a intenção do José Dirceu sempre foi essa, um longo período com o Brasil nas mãos do PT. Desse jeito, vamos virar uma nova Venezuela.

Ele saiu do país com um dos maiores índices de aprovação popular? Ok, não dá pra negar as "pesquisas". Sustentado pelas massas, as classes C e D que realmente cresceram. Mas cresceram por que trabalharam mais? Não. Cresceram porque o governo deu ajuda financeira a troco de nada. Deu por dar.

Voltamos naquela frase clássica: melhor ensinar a pescar ou dar o peixe?

Cada um faz o que quer com o voto, e acho que esse é o maior problema da obrigatoriedade. Tenho colhido informações sobre isso e em breve vou publicar aqui uns textos que tenho escrito sobre esse assunto.